
Não se deve confiar no que eu digo e escrevo. Copiem isto. Copiem. Rápido. Ctrl+c e ctrl +V. Pronto. Colem pelas paredes. Escrevo toda a verdade sobre mentiras que os olhos gostam de olhar. Escrevo mentiras em lentes escuras para proteger os olhos sensíveis das verdades ofuscantes. Tenho também olhos azuis. Quando nasci, acharam que seriam verdes. Queriam-me verde de esperança. Queriam-me com o nome que não uso. Mas o verde eu recuso. Ponho azul. Faço a escolha. Afirmo e assino. Copiem logo, estou dizendo agora uma verdade inédita: tenho olhos azuis. Marinhos. Olhos de um mar que nunca consegui roubar. Tanto tentei e tanto olhei que meus olhos ficaram para sempre lá. Azuis. Não consegui trazê-lo comigo. Fiz como aprendi: ctrl C + ctrl V. E nada. Ele não veio, não se colou salgado à minha pele, não me mordeu atrás da orelha. Só meus olhos sofreram a inundação. Olhos marinhos. Não se pode confiar nas cores que eu invento, mas mesmo assim, copiem se acharem que devem. Colem as cores nas janelas dos olhos, adivinhem significantes, levantem teorias, suponham minhas mentiras, queixem-se ao bispo sobre as minhas infrações. Estou cansada de explicar-me. Uso lentes tão escuras porque azuis são os meus olhos e o excesso de luz me fere de morte. Não pretendo renunciar a nenhuma de minhas invenções em hidrocor. Conservo-as com reverência. Também eu me copio o tempo todo e copiosamente me derramo em blues. Que não são meus.
01 outubro, 2006
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