Para D. Lydia de Moraes:
Itatiaia, 9 de junho de 1936.
Minha mãe,
Não telegrafei ontem por pura pressa. O automóvel já nos esperava quando chegamos e, com a excitação da chegada, me passou inteiramente...
Perdoe. E, sobretudo, não seja desconfiada ou malquerente. Tudo isso são coisas que acontecem. E são apenas um milésimo da vida para uma criatura como eu...
Eu nasci para andar por aí, solto, com todo o mundo preocupado comigo e eu preocupado com todo o mundo, mas... livre como um bom pássaro que não sou...
Que farei para me livrar dessa prisão de ventre que deu para me dar? O Eloy Pontes (figa!) não gostaria... Laranjas pela manhã? Azeite? E se me atacar o estômago?
Os poetas deviam ser criaturas mais sadias que os outros homens, para poder consolá-los com superioridade de armas. Aliás, eu sou bastante sadio, graças a Deus! E antes prisão de ventre que falta de caráter, como é de costume se ver por aí por esse grande Brasil.
Abraços,
Vinicius
Morares, Vinícius de. Querido Poeta – Correspondência de Vinícius de Moraes – Org.: Ruy Castro. – São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 43.
18 maio, 2006
Uma cartinha
Assinar:
Comment Feed (RSS)
|