18 outubro, 2005

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Por que escreve e rasga a fogo
o que te dei e arrisca
meu nome na roleta?
Por que esta exposição à luz?
Espero que me liguem
a algum pedaço de terra.
Aqui no fundo do horto florestal
ouço coisas que nunca ouvi,
pássaros que gemem.
Aguço o ouvido.
Peço para mim mesma que ligue, ligue, ligue
os aparelhos surdos que só fazem som e tomam
o lugar clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Sopra fúria.

Ana Cristina Cesar
In: Inéditos e Dispersos, Ática, 1998, p. 183