03 agosto, 2005

Porque alguém perguntou...

Na verdade, encontrei apenas dois gatos negros por aqui. Alguém perguntava sobre isso. O que significa esse gato negro na minha clandestinidade. Espantei-me. Significa? Direi algo sobre os gatos, então.

Um deles está no banner e já me disseram que é uma gata. Não sei. Eu não a conheço. Fotografei-a numa tarde de domingo. Afinidade? Talvez. Ela estava quieta, descansando à sombra no jardim da casa. Eu passava silenciosa pela calçada. Ainda assim nossos ruídos se apresentaram. Ela, ilustre e acanhada, protegida pela grama alta. Eu, opaca e anônima, tinha nas mãos a rede. Ela rígida. Eu sorrateira. Pousamos uma na outra em um segundo. Eu tímida e lustrosa atrás da lente. Ela embaraçada e obscura em meio a vegetação. Eu inflexível. Ela matreira. Ambas clandestinas.

O outro gato está sobre a mesa do jantar. É uma boa garrafa de vinho chileno o Gato Negro. Aquece noites de inverno. Faz sorrisos nos olhos. Acaricia o coração. Afinidades. Tenho, sim. Com muitos chilenos que não são gatos mas que são tintos. E secos, claro. Nenhuma razão especial para eleger um gato negro como inspiração de meus passos clandestinos ou cambaleantes. Talvez uma voz com hálito de sal sussurrasse algo sobre meu pêlo macio na escuridão de meus sonhos. Eu iria para a janela ver a lua e fazer coro com os que são felizes em amores sobre as telhas. Garras afiadas. Cálices no chão. Manchas nos tecidos. Umidade na escada. E os passos leves de quem não bate à porta. Entra.