Na infância, nosso quintal era feito de canteiros, construções de tijolos rústicos colados em diagonal um ao outro. Nas laterais, ao longo dos muros, tínhamos dálias, palmas, plantas de folhas coloridas. Alguns canteiros centrais guardavam bocas-de-leão, onze-horas, ranúnculos, amores-perfeitos, cravos e cravinas. Outros tinham a responsabilidade de proteger as roseiras: Rainha das Neves, Bolão de Ouro, Carla. A Príncipe Negro em seu vermelho exuberante morava no meio do jardim. Cada vez que um botão ameaçava surgir, expectativa e êxtase brilhavam em nossos olhos.
Nos olhos das formigas também, era o que imaginávamos. As carregadeiras apreciavam todas as iguarias do jardim, mas que apetitosas deviam ser as roseiras! Por isso moravam dentro das arandelas. A água dentro do anel de barro era como o lago ao redor do castelo. Nossa responsabilidade infantil era a de não deixar secar a água do lago. Era sério e divertido observar as formigas carregadeiras recortando pedaços de grama para lançar ao lago como barcos. Muito triste era esquecer de encher o lago. Um corte preciso no pescoço do botão e estava feita a tragédia. Amaldiçoávamos as formigas, então. Seguíamos seus vestígios, investigávamos até encontrar o formigueiro, munidas de querosene e caixa de fósforos. Nossa mãe dizia que era difícil acabar com elas porque a rainha ficava muito bem protegida. Nunca vi uma rainha, mas me contavam que era enorme. Uma formiguinha alta e gorda que ficava lá dentro da toca ensinando ao seu povo as técnicas de recortar barcos e invadir castelos e decapitar o príncipe-negro, a rainha das neves e o que de mais nobre existisse. Formiguinhas debochadas. Morriam depois da missão cumprida. Mas não se extinguiam. Renasciam em formigueiros novos.
As formigas lá de casa eram detestadas e admiradas. Eram inimigas e inquilinas. As melhores professoras nas manhãs de sol sobre as lajes. As madames encontravam-se na fila de suas feiras, paravam para conversar, mostravam os seus pedaços de folhas e trocavam segredos que não podíamos ouvir. Sei que ainda vivem lá. Eu não. Mudei de formigueiro. Estou aprendendo a fazer pontes e barcos. Reconheço amigos nos caminhos das minhas feiras. Escrevemos em letra miúda sobre folhas. Sorrimos, acenamos, continuamos andando rápido, carregando coisas, debochando da nobreza, intrigando crianças, inventando histórias para os olhos atentos atrás dos tijolos.
Nos olhos das formigas também, era o que imaginávamos. As carregadeiras apreciavam todas as iguarias do jardim, mas que apetitosas deviam ser as roseiras! Por isso moravam dentro das arandelas. A água dentro do anel de barro era como o lago ao redor do castelo. Nossa responsabilidade infantil era a de não deixar secar a água do lago. Era sério e divertido observar as formigas carregadeiras recortando pedaços de grama para lançar ao lago como barcos. Muito triste era esquecer de encher o lago. Um corte preciso no pescoço do botão e estava feita a tragédia. Amaldiçoávamos as formigas, então. Seguíamos seus vestígios, investigávamos até encontrar o formigueiro, munidas de querosene e caixa de fósforos. Nossa mãe dizia que era difícil acabar com elas porque a rainha ficava muito bem protegida. Nunca vi uma rainha, mas me contavam que era enorme. Uma formiguinha alta e gorda que ficava lá dentro da toca ensinando ao seu povo as técnicas de recortar barcos e invadir castelos e decapitar o príncipe-negro, a rainha das neves e o que de mais nobre existisse. Formiguinhas debochadas. Morriam depois da missão cumprida. Mas não se extinguiam. Renasciam em formigueiros novos.
As formigas lá de casa eram detestadas e admiradas. Eram inimigas e inquilinas. As melhores professoras nas manhãs de sol sobre as lajes. As madames encontravam-se na fila de suas feiras, paravam para conversar, mostravam os seus pedaços de folhas e trocavam segredos que não podíamos ouvir. Sei que ainda vivem lá. Eu não. Mudei de formigueiro. Estou aprendendo a fazer pontes e barcos. Reconheço amigos nos caminhos das minhas feiras. Escrevemos em letra miúda sobre folhas. Sorrimos, acenamos, continuamos andando rápido, carregando coisas, debochando da nobreza, intrigando crianças, inventando histórias para os olhos atentos atrás dos tijolos.
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